Mateus e João eram apóstolos. Marcos, um discípulo de outro apóstolo
(Pedro). E Lucas era médico de Paulo. Pela tradição cristã, eles são os autores
dos quatro evangelhos do Novo Testamento. Mas isso também é um mito. Ninguém
sabe quem escreveu os livros. A “autoria” de cada um foi atribuída
aleatoriamente pela Igreja bem depois de os textos terem ido para o papiro. O
evangelho de Mateus, por exemplo, foi atribuído a Mateus porque ele dá ênfase
ao aspecto econômico e Mateus era o
apóstolo que tinha sido coletor de impostos. Já o texto creditado a João é o
único dos evangelhos a relatar o episódio em que Jesus, pouco antes de morrer,
pede ao apóstolo João que ele cuide de Maria. Aí os créditos ficaram com João.
O que se sabe mesmo sobre os autores é que não eram autores no sentido
moderno da palavra. Hoje, qualquer um pode ser autor, porque todo mundo sabe
ler e escrever. Há 2 mil anos, não. Saber escrever era o equivalente a hoje
saber engenharia da computação. Do mesmo jeito que as empresas contratam engenheiros
para cuidar de seus mainframes, os antigos contratavam escribas quando
precisavam deixar algo por escrito. Com os evangelhos não foi diferente. O mais
provável é que comunidades cristãs tenham encomendado esses trabalhos e ditado
aos escribas as histórias que conhecemos hoje. Ditado e entregado outros textos
também, para que eles usassem como fonte.
Dos evangelhos, o primeiro a ser escrito foi aquele que hoje é atribuído
a Marcos, quase 40 anos após a morte de
Jesus. Marcos, enfim, saiu por volta do ano 70. Mateus e Lucas vieram um pouco
depois, ente 75 e 80 até por isso ambos trazem alguns trechos idênticos aos do
manuscrito atribuído a Marcos.
Também há muita coisa igual em Mateus e em e Lucas, e que não aparece
em Marcos. Como? A tese é simples: os dois autores teriam usado uma fonte em
comum, que acabou perdida. Os especialistas chamam essa fonte de “Q” (“Q” de
queil, que é “fonte em alemão). Sempre que Mateus e Lucas concordam em alguma
história que não está em Marcos, então, ela é creditada ao suposto livro “Q”.
Por causa desse entrelaçamento todo, costumam chamar esses três evangelhos de
“sinópticos”. Ou seja: os três têm a “mesma ótica”.Contam basicam ente a mesma
história, cada um com algum adendo aqui e alguma omissão ali. Já João, o quarto
evangelho, escrito por volta do ano 100, traz uma história diferente ali Jesus é
mais do que o filho de Deus: é o próprio Deus encarnado. E a narrativa também
muda. Em João ele destrói as barracas dos cambistas e vendedores do Templo de Jerusalém
logo no começo da saga, por exemplo. Nos outros, esse ato está bem no final.
Depois foram surgindo mais e mais “biografias de Jesus. Para diminuir
a bagunça,logo depois que o imperador Constantino legalizou o cristianismo, no século
4, a Igreja se organizou para definir quais seriam os livros que fariam parte
da Bíblia Cristã. E bateu o martelo para a formação atual do Novo Testamento. O
critério da Igreja foi usar os textos mais antigos, os mais confiáveis. Os
quatro evangelhos, inclusive, faziam parte da primeira lista de livros sagrados
do cristianismo de que se tem notícia, o Canon de Muratori, compilado em 170 D.C.
A Igreja no século 4 apenas reconheceu o que já eram as suas escrituras por
séculos” diz o teólogo Ben Witherington, da Universidade de St. Andrews, na
Escócia.
Os textos sobre Jesus que não entraram para a Bíblia acabaram
conhecidos como evangelhos “apócrifos” (“ocultos” em grego). Existem dezenas, um
deles, aliás, é aquele descoberto recentemente e que ficou famoso por dizer que
Jesus era casado. No é bem um evangelho , mas um fragmento de papiro do tamanho
de um cartão, em que aparece escrito em egípcio: “Jesus disse a eles: ‘Minha
esposa (...)_‘“o resto está cortado. O manuscrito é dos anos 300 D.C.
Bem mais recente que os evangelhos do Novo Testamento. O que ele
significa? Que alguma comunidade cristã daquela época acreditava que Jesus era
casado.
Para a maior parte dos pesquisadores,
isso não basta para mudar a ‘biografia oficial’ de Cristo, Como diz André
Chevitarese: João Batista era celibatário: Paulo era celibatário. Jesus é um
desses casos”.
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